A nova era dos desenhos: A transição das animações
As mudanças nas séries de animação no processo de transição da televisão para o streaming
Os desenhos animados, assim como outras formas de arte, são a expressão criativa de um indivíduo ou um grupo que, na sua essência, é capaz de se tornar cultura, comércio e história e influenciar a sociedade por meio da criação de inúmeros universos, expandindo-se artisticamente, sendo capaz de misturar a insensatez caricata com a profundidade de uma mensagem educacional ou filosófica, de modo que atrai tanto crianças quanto jovens e adultos.
A Era da Televisão
Inicialmente, as produções animadas, em especial as séries voltadas para a televisão, tinham como objetivo impulsionar o comércio de brinquedos e funcionavam sendo pensadas como uma espécie de propaganda, como é o caso de ‘He-Man’ (1983) e ‘Moranguinho’ (1980), que se originaram de brinquedos que já eram comercializados na décadas de 70 e 80. Devido ao aumento de público infantil nos programas de televisão, foi necessário realizar diversas produções para acompanhar essa nova dinâmica. Foi então que, no final do século XX e início do século XXI, surgiram diversas animações com o intuito de atrair cada vez mais o público infantil, como ‘As Meninas Superpoderosas’, ‘Johnny Bravo’ e ‘Os Padrinhos Mágicos’, que, como consequência da popularidade, acabaram influenciando a moda, o design e até as tendências de comportamento.
Os desenhos tinham uma característica assertiva para a captação de diferentes públicos na época, o nonsense, que poderia tanto servir como uma estrutura cômica quanto dramática, dependendo apenas da criatividade de quem estivesse desenvolvendo, sem necessariamente focar em um público-alvo por meio do gênero ou da faixa etária. Essa estrutura era muito perceptível em desenhos como ‘Looney Tunes’, ‘Tom & Jerry’ e ‘Bob Esponja Calça Quadrada’, que até hoje fogem do estereótipo de desenhos infantis, mesmo que não tenham propriamente nada considerado adulto.
Outra característica marcante dos desenhos era a estrutura dos episódios, na qual o problema apresentado em um capítulo não influenciava no seguinte, para que cada um pudesse ser exibido independentemente. Conforme o tempo passou, cada vez mais, seja por influências de animações japonesas, que também tinham seu destaque, ou puramente por decisão da indústria da animação, os desenhos foram ganhando uma narrativa que passava a interligar um episódio ao outro. Na década de 2010, esse início aleatório com temporadas finais interligadas foi muito marcante em obras como ‘Hora de Aventura’, ‘Steven Universo’ e até ‘O Incrível Mundo de Gumball’, entregando mais destaque à Cartoon Network, que era uma referência no setor de séries de animação.
Nos últimos anos da década de 2010, muitos desenhos foram cancelados e muitos outros haviam sido esquecidos ou “afogados” nas madrugadas, quando a audiência era muito menor. Em 2016, uma das obras de destaque da Cartoon foi cancelada: ‘Steven Universo’, após Rebecca Sugar lutar pelo direito de levar ao ar o primeiro casamento homoafetivo dentro das animações, o que não foi bem recebido pela indústria, mas abriu portas para novos personagens LGBTQIA+, como a Princesa Jujuba e a Marceline, de ‘Hora de Aventura’. Infelizmente, depois de ‘Steven Universo’, diversos outros desenhos tiveram suas exibições canceladas nos anos seguintes por diversos fatores ou simplesmente terminaram suas histórias, deixando as salas de produção.
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A Era do Streaming e das Produções Independentes
Atualmente, na terceira década do século XXI, a dinâmica de produção se adaptou para o streaming, e algumas características se perderam nas novas produções, como o nonsense e a aleatoriedade de reprodução, que foram substituídos por uma linearidade e um caráter mais realista, mas mantendo a fantasia.
Essa passagem para o streaming também reverteu algumas circunstâncias negativas, como o lançamento de spin-offs de séries canceladas, tal como ‘Fionna and Cake’, e até com o retorno de produções canceladas, no caso de ‘O Mundo Maravilhosamente Estranho de Gumball’, ambos pela Max. Outra característica da era do streaming é o retorno de obras antigas que não eram mais reproduzidas na televisão, como ‘She-Ra’ e ‘He-Man’, que receberam releituras pela Netflix; ‘Winx’, que ganhou a série ‘Fate: A Saga Winx’; e ‘Avatar: A Lenda de Aang’, que estreou a segunda temporada de seu live-action, também produzido pela Netflix.
Por mais que a dinâmica das animações tenha se adaptado à nova era, uma nova forma de exibição e produção também ganhou destaque durante e pós-pandemia: a produção independente. Um relatório do SmithGeiger aponta que 67% dos fãs brasileiros de animações gostam de assistir a produções independentes, e os motivos são diversos, desde o gosto pessoal até a maior participação, seja na produção de arte, na ajuda de custo ou na tomada de decisões, o que faz com que se sintam parte do processo.
Todo esse engajamento também chama a atenção dos streamings, que aos poucos vêm captando essas animações indie a fim de atrair esse público para dentro das plataformas. ‘The Amazing Digital Circus’ e ‘Hazbin Hotel’ são bons exemplos de como simples episódios pilotos conseguiram engajar os fãs de animação a ponto de essas obras não apenas serem inseridas em plataformas de streaming, mas conseguirem verba para continuar produzindo os episódios sem deixar de lado a participação dos fãs.
O mercado das animações tem passado por diversas mudanças, principalmente na nova era digital, mas não deixou de ser consumido. Uma pesquisa da UCLA, em 2025, apontou que cerca de 48,5% dos jovens de 10 a 24 anos preferem conteúdos de animação, sendo que, entre os mais velhos (de 19 a 24 anos), 47,8% também preferiram conteúdos animados, o que desmonta o estereótipo de desenhos serem exclusivamente para o público infantil, principalmente em uma época em que diversos conteúdos animados foram e continuam sendo produzidos para o público jovem-adulto.
A arte das animações é maleável e pode se estender a todo grupo de pessoas, independente de idade ou grupo étnico-cultural. Com a inserção de diferentes culturas e grupos sociais nas animações, ela passa a ser mais inclusiva e a cumprir um papel muito maior que a comercialização de brinquedos: a propagação de diferentes realidades que promove muito mais identificação, sem tirar a mágica das inúmeras possibilidades que ela exerce dentro de sua capacidade artística.
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