Exploração de aquíferos ameaça ‘Lagunas Escondidas’ do Atacama
lagoas podem desaparecer em 10 anos
Localizado no Chile, o Deserto do Atacama atrai visitantes do mundo todo por suas paisagens surreais, como o Valle de la Luna, Piedras Rojas e as famosas Lagunas Escondidas de Baltinache, um conjunto de lagoas salinas de águas azul-turquesa com alta concentração de sal, onde é praticamente impossível afundar
Atualizada em 27.07.2025
Embora seja considerado o segundo maior deserto do mundo e possua regiões onde não chove há milhões de anos, o Atacama abriga formações naturais únicas, resultado de processos geológicos que remontam à era da formação da Cordilheira dos Andes.
Risco ambiental crescente
Essas lagoas, que levaram mais de 12 milhões de anos para se formar, estão hoje ameaçadas pela ação humana. Um acordo firmado entre o governo chileno e uma empresa mineradora tem permitido a captação de água dos aquíferos subterrâneos que alimentam as Lagunas Escondidas. Esse uso intensivo impede a reposição natural da água e pode comprometer definitivamente a existência dessas formações naturais.
Durante uma visita guiada ao local, o guia Davi explicou que, caso a extração continue no ritmo atual, as lagoas podem desaparecer completamente em menos de 10 anos.
“A água que vemos aqui vem de bolsões subterrâneos alimentados pelo degelo da Cordilheira dos Andes. Sem reposição, elas vão secar”, alerta o guia.
O contrato entre o governo chileno e a mineradora tem validade de 30 anos, e até o momento não há indícios de revisão ou medidas de mitigação dos impactos ambientais.
Como se formaram as Lagunas Escondidas
As Lagunas Escondidas estão situadas dentro do Salar de Atacama, uma grande bacia endorreica, sem saída para o mar, que favorece o acúmulo de água e sais minerais. Ao longo de milhares de anos, a água do degelo da Cordilheira infiltrou-se no subsolo e ficou retida em depressões naturais do terreno. Devido ao clima extremamente árido, com altíssimas taxas de evaporação, formaram-se as lagoas hipersalinas.
A salinidade chega a cerca de 300 gramas de sal por litro, quase o mesmo que o Mar Morto, tornando a experiência de flutuar nessas águas um dos atrativos mais populares do Atacama.
As cores intensas das lagoas, que variam do azul profundo ao verde esmeralda, são resultado da pureza da água, microrganismos e da reflexão da luz sobre o fundo branco de sal e gesso. O nome ‘Lagunas Escondidas’ vem justamente de sua localização remota e dispersa, fora das rotas principais do deserto.
Impacto do turismo e medidas de preservação
Atualmente, apenas duas das sete lagoas seguem abertas à visitação. Após o uso por turistas, elas precisam ser fechadas por até dois anos para permitir a regeneração dos micro-organismos presentes nas águas, em um esforço para conter os impactos do turismo.
No entanto, especialistas alertam que medidas isoladas de manejo turístico não serão suficientes para garantir a preservação das lagunas se a captação dos aquíferos não for revista.
Reflexão
O desaparecimento das Lagunas Escondidas não significaria apenas a perda de uma das paisagens mais emblemáticas do deserto, mas também o colapso de um delicado ecossistema que levou milhões de anos para se formar.
A situação lança um alerta sobre os limites da exploração de recursos naturais em nome do desenvolvimento econômico, e reforça a urgência de políticas sustentáveis que conciliem preservação ambiental e atividade humana.
Fotos: Guilherme Chinarelli
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