A ligação sobre trilhos entre capital e litoral está em funcionamento desde 1885
Aos 140 anos, a ferrovia que liga Curitiba a Morretes guarda muito mais do que belas paisagens: ela carrega uma história marcada por ambição, coragem, tragédias e lendas que nasceram no coração da Serra do Mar
Inaugurada em 1885, a Estrada de Ferro Paranaguá–Curitiba foi um marco da engenharia brasileira e até hoje é considerada uma das viagens de trem mais belas do mundo.
A visão dos irmãos Rebouças
Os irmãos André e Antônio Rebouças, filhos de um pai autodidata e netos de uma escrava alforriada casada com um alfaiate da corte portuguesa, tiveram acesso a uma formação de elite: estudaram na Europa e se especializaram em engenharia no Rio de Janeiro, em plena época de escravidão no Brasil.
Em 1865, André Pinto Rebouças, observando um mapa, percebeu que a cidade de Antonina, no litoral paranaense, estava praticamente alinhada com Assunção, no Paraguai. Ele vislumbrou a construção de uma ferrovia ligando essas cidades, criando uma rota estratégica para escoamento de cargas. Porém, o projeto não avançou por causa da Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), que opôs Brasil, Uruguai e Argentina ao Paraguai.
Mesmo assim, a ideia de interligar o planalto ao litoral seguiu viva. Em 1871, produtores de erva-mate e políticos de Curitiba debatiam a urgência de levar a produção até o porto. Na época, os principais mercados consumidores eram Uruguai, Chile, Inglaterra e França. O transporte, no entanto, era limitado a muares pelas trilhas indígenas, com destaque para a Estrada da Graciosa (concluída apenas em 1873) que ainda assim não resolvia o gargalo logístico.
Do traçado inicial à mudança de rota
Em 1873, Antônio Rebouças apresentou ao presidente da província o projeto da ‘Estrada de Ferro Dona Isabel’, que ligaria Antonina a Curitiba. A proposta seguia o traçado original imaginado por André, mas em 1874 Antônio faleceu, vítima de malária durante a construção de uma ponte em São Paulo.
O projeto passou então às mãos do Barão de Mauá, pioneiro das ferrovias no Brasil. Porém, em 1875, um decreto imperial alterou a rota para que a ferrovia partisse de Paranaguá em vez de Antonina. Acredita-se que o motivo principal foi o fato de que o trecho entre Paranaguá e Morretes já estava parcialmente construído por iniciativa privada.
O desafio técnico e humano
Em 1879, a concessão foi adquirida pela companhia belga-francesa ‘Générale de Chemins de Fer Brésiliens’, sob a direção do engenheiro Antonio Ferrucci, experiente em obras ferroviárias na Itália e no Egito.
No dia 5 de junho de 1880, o imperador Dom Pedro II lançou a pedra fundamental da ferrovia na estação de Paranaguá. A construção foi dividida em três frentes simultâneas: Paranaguá–Morretes (42 km), Morretes–Roça Nova (38 km) e Roça Nova–Curitiba (30 km).
O projeto original previa vencer um desnível de quase mil metros com curvas em ‘S’, 13 túneis escavados na rocha e 30 pontes e viadutos, incluindo a Ponte São João, com 113 metros de comprimento e um vão central de 70 metros, reforçado com um arco em 1945.
A obra envolveu cerca de 4 mil trabalhadores no início, número que dobrou para 9 mil após 1882, quando João Teixeira Soares, um jovem engenheiro mineiro de apenas 34 anos, assumiu a direção. Ele enfrentou críticas por sua pouca idade, mas manteve o ritmo acelerado da construção, mesmo diante de uma epidemia de malária e tifo.
Importante ressaltar que, por determinação de Dom Pedro II, a mão de obra escrava foi proibida na construção. Caso houvesse trabalhadores ex-escravizados, eram remunerados. A força de trabalho veio majoritariamente de imigrantes poloneses, alemães e italianos.
Lendas que atravessaram gerações
A ferrovia também deu origem a histórias que alimentaram o imaginário popular:
- O túnel dos gritos – onde operários afirmavam ouvir passos e vozes de trabalhadores soterrados.
- A noiva da serra – lenda sobre uma jovem que morreu tentando levar comida ao noivo na obra; seu vestido branco apareceria na neblina.
- A assombração da Ponte São João – relatos de maquinistas que viam figuras humanas sobre a ponte, desaparecendo na aproximação do trem.
Inauguração e legado
O trecho Paranaguá–Morretes foi inaugurado em 1883. Em 1884, a Ponte São João foi montada e, em novembro daquele ano, a princesa Isabel percorreu todo o trajeto.
A inauguração oficial ocorreu em 2 de fevereiro de 1885, com o início do tráfego regular no dia 5. Com 110,9 km originalmente, hoje 108,2 km devido a ajustes, sendo considerada uma obra-prima da engenharia nacional.
140 anos depois
Atualmente, a viagem turística entre Curitiba e Morretes, operada pela Serra Verde Express, percorre 68 km em cerca de três horas e meia, cruzando túneis centenários, viadutos e a Mata Atlântica preservada. Ao chegar, os visitantes encontram ruas de paralelepípedo, casarões coloniais e o famoso ‘barreado’.
Em 2025, a ferrovia celebra 140 anos de operação ininterrupta, um feito raro no mundo, mantendo viva a união entre história, natureza e memória. Aos que desejarem realizar esse passeio pela ferrovia, basta clicar aqui e acessar o site oficial da Serra Verde Express
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