Wicked Brasil sustenta força estética, mas perde densidade em escolhas de adaptação
Com 300 apresentações em São Paulo, espetáculo apostou em inovação visual, mas dividiu público em decisões criativas
Um dos musicais mais antigos da Broadway, Wicked ganhou no Brasil uma nova montagem que reafirmou sua força como espetáculo de grande porte, ao mesmo tempo em que evidenciou escolhas de adaptação que nem sempre sustentam a mesma potência dramatúrgica das versões originais.
Com 300 apresentações em São Paulo, a produção brasileira se consolidou como um fenômeno de público, sustentada por uma engrenagem técnica eficiente e por performances já amadurecidas ao longo da temporada. Ainda assim, ao longo da encenação, é possível perceber um desequilíbrio entre impacto visual e aprofundamento cênico.
Cenografia funcional, mas pouco expansiva
A cenografia apostou em uma lógica mais econômica e funcional, ancorada majoritariamente na estrutura fixa das ‘escadarias da Universidade Shiz’. A opção por um espaço cênico pouco mutável reduz a plasticidade da encenação e limita a construção de atmosferas distintas ao longo da narrativa.
Mesmo com pequenas variações, como o dormitório de Glinda e Elphaba no primeiro ato, ou os ambientes ligados ao encontro com o Mágico no segundo, a percepção de unidade espacial permanece evidente. Falta à encenação uma exploração mais contundente da cenografia como elemento narrativo, capaz de ampliar o universo simbólico da obra.
Figurino acompanha arco dramático, mas perde identidade
Se o espaço cênico se mostrou contido, o figurino surge como um dos principais vetores de transformação visual. A construção dos trajes acompanha o desenvolvimento das personagens, refletindo suas mudanças internas e trajetórias dramáticas.
Ainda assim, algumas escolhas chamaram atenção pela simplificação estética. O figurino de Glinda, interpretada por Fabi Bang, por exemplo, abandonou parte do volume e da exuberância característicos da personagem em montagens anteriores, resultando em uma leitura mais contida, e, em certa medida, menos emblemática.

Em contraste, o trabalho de caracterização de Boq, vivido por Thadeu Torres, se destacou pela precisão técnica. A transição para o Homem de Lata evidenciou um cuidado na composição corporal e na fisicalidade, com gestual rígido e detalhamento visual que reforçam a verossimilhança da transformação, alterando sua face humana para uma prateada, evidenciando ainda mais sua mudança.
Outro aspecto que merece destaque é a caracterização do Dr. Dillamond, professor bode que acolhe Elphaba no início de sua trajetória acadêmica. A construção visual do personagem evidenciou um trabalho técnico preciso, tanto na maquiagem quanto no figurino, resultando em uma composição cênica altamente verossímil.
Interpretado por Arízio Magalhães, o personagem se destaca pelo nível de detalhamento: mesmo em proximidade com o público, como nas primeiras fileiras, torna-se difícil identificar traços humanos evidentes. A atuação, aliada à caracterização, prioriza gestualidade e expressividade ‘animalizadas’, reforçando a imersão e consolidando uma das composições mais bem resolvidas do espetáculo.
Participações especiais geram inconsistência
Um dos pontos mais controversos desta nova montagem está na estratégia de participação de artistas convidados, o conhecido dilema do ‘convidado convida?’. A decisão da produção e da direção de inserir nomes externos ao elenco oficial em sessões específicas levanta questionamentos sobre a coerência artística e a manutenção da unidade cênica do espetáculo.
Ao substituir, ainda que pontualmente, intérpretes já consolidados em seus papéis, a montagem abre espaço para oscilações de ritmo e de construção de personagem. Ainda que alguns convidados consigam se integrar à dinâmica da cena com competência, demonstrando adaptação ao tom da encenação e ao público, outros apresentam performances que pouco acrescentam à narrativa, evidenciando um descompasso com o restante do elenco.
A prática, embora compreensível sob uma lógica de apelo comercial, impacta diretamente a consistência dramatúrgica e compromete a experiência do espectador mais atento, que percebe a quebra de continuidade na interpretação e na energia da cena.
Encenação aposta em espetáculo e cria assinatura própria
É na encenação que a montagem brasileira encontrou seus momentos mais marcantes, e também mais divisivos. Um dos exemplos mais emblemáticos está na cena de ‘Desafia a Gravidade’, versão brasileira de ‘Defying Gravity’.
Diferente das montagens tradicionais, em que Elphaba é suspensa no centro do palco, a produção de 2025 optou por um voo sobre a plateia, criando um efeito de imersão e ampliando a relação com o público. A escolha confere identidade própria ao espetáculo e reforçou sua vocação para o grandioso.
Por outro lado, essa mesma busca por impacto pode, em alguns momentos, se sobrepor à construção dramática, deslocando o foco da narrativa para o efeito visual.
Entre o espetáculo e a dramaturgia
Wicked Brasil funciona com eficiência enquanto experiência sensorial e espetáculo de grande escala. No entanto, quando observado sob uma lente mais analítica, revela fragilidades na articulação entre forma e conteúdo.
A montagem emociona, impressiona e mantém sua relevância no circuito musical brasileiro, mas também evidencia que adaptar um clássico não é apenas traduzir sua linguagem, é recriar sua essência sem perder profundidade.

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